O arquiteto de ecossistemas da cultura urbana

Ao longo das últimas duas décadas, Bill Tassinari se consolidou como um dos principais nomes na construção de pontes entre skate, arte, música e mercado no Brasil. Mais do que criar marcas, ele ajudou a estruturar movimentos — transformando iniciativas independentes em plataformas culturais de grande impacto.

/// FOTO: FLAVIO SAMELO

De projetos nascidos de forma orgânica, como a Bintang, até iniciativas de escala nacional e internacional como Homegrown, ArteCore, Layback e sua atuação no STU, Bill desenvolveu uma visão clara: cultura não se vende, se fortalece. Nesta entrevista, ele compartilha aprendizados sobre comunidade, autenticidade e a construção de ecossistemas sustentáveis dentro da cultura urbana.

Você começou em 2002 com a Bintang. O que te motivou naquele momento e qual era sua visão sobre cultura e mercado naquela época?

A Bintang nasceu do instinto, de uma vontade pura de expressar a verdade que vivíamos: amizade, curtição e surf. Naquela época, eu não tinha a noção de “branding”, estava cursando publicidade, mas já entendia que a força não estava no produto, mas na energia da nossa comunidade. Essa foi a semente para tudo que construí depois: a ideia de que uma marca forte não vende coisas, ela organiza e dá identidade a uma cultura que já existe.

Em que momento você percebeu que seu trabalho não era apenas sobre produto, mas sobre construir comunidade?

A necessidade me forçou a criar um modelo diferente. Sem dinheiro para uma loja convencional, transformamos nossa casa na Joatinga em um ponto de encontro. As festas que fazíamos não eram só para pagar os boletos; elas se tornaram o próprio produto. As pessoas não vinham comprar uma camiseta, elas vinham viver a experiência da marca. Ali eu entendi, na prática, o que é um ecossistema: a loja financiava a festa, a festa construía a comunidade, e a comunidade dava significado à marca. Foi a dificuldade que me ensinou a não depender de um único pilar.

A Homegrown foi pioneira no Brasil como sneakershop. Como surgiu a ideia de transformar a loja em um espaço cultural com galeria de arte?

Esse mercado de sneakers era muito pequeno na época e o público desse mercado e da arte urbana era o mesmo. Sempre rolou exposições na loja e era o que mais dava tesão na gente, mais do que a venda de tênis em si. A transformação rolou quando decidimos separar uma sala só para exposições e outro espaço para a loja. O resto fluiu naturalmente, já que o Rio é uma cidade de cultura de praia muito forte e não tinha um espaço como esse na cidade. Isso acabava juntando toda essa galera que buscava um lugar onde a arte urbana, o skate e a música fossem celebrados de verdade.

Como nasceram as colaborações com marcas globais como Puma, New Era e Rider?

Nasce sempre da força e identidade da marca que estávamos criando. A gente era um movimento muito forte, muito autêntico, e todos os artistas da cena estavam lá. Essas marcas maiores precisam de interlocutores que falem com o nicho e com os formadores de opinião do mercado que querem atingir. Quando você constrói algo legítimo, as marcas vêm atrás porque você tem acesso a um público que elas não conseguem alcançar de outra forma.

O ArteCore se tornou o maior festival de arte urbana do país. Como foi estruturar um projeto dessa dimensão?

Mais uma vez, o sucesso foi natural. Já fazíamos inúmeras exposições na Homegrown e queríamos amplificar isso. Levamos o projeto ao MAM-Rio que, por sorte, queria rejuvenescer seu público, e casou perfeitamente. Já tínhamos os artistas, tanto de arte visual como musical, e os skatistas, todos como amigos e frequentadores das nossas exposições. O MAM nos deu a infraestrutura física e a credibilidade institucional, mas o coração do projeto era a comunidade que já tínhamos construído.

Você costuma falar muito sobre “estrutura”. O que é, na prática, construir um ecossistema cultural sustentável?

Construir um ecossistema é criar uma estrutura onde todos os elementos se apoiam e geram valor mútuo. Na prática, significa que a marca, o evento, a comunidade e o espaço físico não são projetos separados; eles são interdependentes. O segredo é prestigiar os protagonistas: em vez de sugar a cultura, você constrói a infraestrutura para que ela possa prosperar sozinha. Você constrói o palco, não tenta ser a estrela.

Quais são os pilares para que uma marca consiga dialogar com a cultura de forma legítima, sem parecer oportunista?

É ser de verdade, ter vivido aquela cultura ou ser humilde e chamar quem vive. A diferença entre uma marca legítima e uma oportunista é simples: a legítima quer investir na cultura, a oportunista quer sugar dela.

Na Layback, vocês conectam skate, surf, música e lifestyle. Como funciona essa integração estratégica?

A Layback foi criada com o Pedro Barros e o André Barros justamente para isso. A integração funciona porque não é apenas uma marca que patrocina eventos. É um ecossistema completo: temos times, produzimos eventos, temos espaços físicos e apoiamos projetos sociais. Cada elemento se alimenta do outro.

Qual a importância do Layback Pro (WSL) e da liga amadora LAB dentro desse ecossistema?

Esses eventos mostram como estamos em toda a cadeia. O Layback Pro atua no topo, com estrutura profissional, enquanto o LAB fortalece a base. É assim que se constrói um ecossistema real: do amador ao profissional.

Como equilibrar posicionamento de marca e autenticidade cultural?

Autenticidade não é uma tática, é uma filosofia. Quando é verdadeira, se torna o maior diferencial competitivo, porque não pode ser copiada.

O STU se consolidou como a maior plataforma de skate do mundo. Qual foi seu papel na expansão cultural do projeto?

Meu papel foi ajudar a transformar o STU em uma plataforma cultural completa, não apenas esportiva. A competição é o coração, mas a cultura é a alma que mantém o movimento vivo o ano inteiro.

Como fortalecer o skate como movimento 365 dias por ano, além dos campeonatos?

Hoje o STU também é mídia. Produzimos conteúdo constante, porque a cultura não pode depender de um único momento. Ela precisa estar ativa o tempo todo.

O que mudou no skate brasileiro após sua entrada no cenário olímpico?

Visibilidade. Novas marcas entraram no mercado, o que tornou eventos maiores viáveis. Isso fortaleceu toda a cadeia

Você transita entre skate, arte, DJs, surf e moda. Como essas linguagens se conectam?

Elas não são separadas. Fazem parte do mesmo ciclo cultural, onde tudo se influencia continuamente.

Qual é o papel da música e da arte dentro do desenvolvimento da cultura urbana hoje?

A música continua sendo mais forte midiaticamente, mas a arte visual ganhou muito espaço com as redes sociais. Hoje há mais acesso e valorização.

O que diferencia um empresário tradicional de um empresário da cultura?

A diferença está na intenção. Um quer explorar, o outro quer fortalecer.

Quais foram os maiores desafios que você enfrentou ao profissionalizar projetos culturais?

Principalmente financeiros. Mas isso também impulsiona a inovação e a criação de modelos sustentáveis.

Sou otimista. Existe uma demanda crescente por experiências reais. O Brasil tem uma riqueza cultural enorme e o mundo quer acessar isso.

O que ainda falta construir dentro da cultura urbana brasileira?

Infraestrutura. Precisamos de mais espaços e condições para que artistas e atletas vivam daquilo que fazem sem perder autenticidade.

Como você gostaria que sua trajetória fosse lembrada daqui a 20 anos?

Como alguém que ajudou a construir a infraestrutura da cultura, criando negócios que fortalecem a cena e não a exploram.

Qual conselho você daria para quem quer empreender dentro do skate e da cultura urbana hoje?

Começa de qualquer jeito e vai melhorando. Feito é melhor que perfeito. Mas, acima de tudo, respeite a cultura e construa algo que permita que outros prosperem junto.

/// FOTO: FELIPE DINIZ

A trajetória de Bill Tassinari mostra que o verdadeiro impacto na cultura urbana não está apenas em criar produtos ou eventos, mas em estruturar ecossistemas duradouros. Sua visão vai além do mercado: ela aponta para um modelo onde marcas, artistas, atletas e comunidade coexistem de forma interdependente.

Em um momento em que o skate e a cultura urbana ganham cada vez mais visibilidade, sua abordagem reforça uma ideia essencial: crescimento sem autenticidade não se sustenta. Construir com verdade, fortalecer quem faz parte da cena e pensar no coletivo — esses são os pilares que transformam projetos em movimentos.

/// Matéria exclusiva para Skate Vale Brasil.

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Por Sagaz

/// Diretor de Arte por profissão e Skatista da vida. Conhecido como Julio Sagaz no Vale do Paraíba/SP, skatista overall desde 1995, passando pelas marcas Ramp Real Street/Santos, Posso! Caçapava, Posso/Adidas, Posso/RedNose e DoubleM. Atualmente é diretor da agência de publicidade e criador do maior portal de skate do vale do Paraíba a Skate Vale Brasil. O portal se destaca não apenas por divulgar os principais picos de skate, pistas, principais eventos e talentos do skate, mas também por ser a única mídia de skate que inclui LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) em sua plataforma, promovendo a inclusão e acessibilidade. 🛹💥🤟🌎📌📸 #juntossomosmaisfortes #skatesalva