Antes de existir indústria consolidada, circuito profissional estruturado ou grandes marcas investindo pesado no skate, já havia quem fazia o movimento acontecer na prática — na rua, na raça e sem manual. Em Caçapava, interior de São Paulo, um desses nomes começava a desenhar o que hoje se tornaria parte da base do skate brasileiro. O nome dele é Felipe Vital. Na cena, Felipão.
Com mais de três décadas dedicadas ao skate, Felipão não é apenas um personagem da história — ele é agente direto da construção dela. Sua trajetória atravessa diferentes fases do skate no Brasil: da marginalização à profissionalização, da resistência cultural ao reconhecimento esportivo.
Foto: Vinicius branka
Mais do que andar de skate, Felipe sempre esteve envolvido em fazer o skate acontecer. Seja organizando eventos, fomentando a cena local, apoiando novos talentos ou ocupando espaços institucionais, sua atuação vai além do shape — é estrutural.
Ao longo dos anos, viu o skate sair da rua para as Olimpíadas, mas sem nunca perder de vista sua essência. Para ele, o skate continua sendo, acima de tudo, uma ferramenta de transformação social, identidade e liberdade.
Hoje, ocupando o cargo de Diretor de Esportes, Felipão atua diretamente no desenvolvimento do skate em nível nacional, ajudando a construir políticas, projetos e caminhos para as novas gerações. Uma transição natural para quem sempre entendeu que o skate não se sustenta só na manobra — mas na base que a sustenta.
Mesmo com toda essa trajetória, a raiz segue intacta. A rua ainda é referência. A vivência ainda é o guia. E o respeito à cultura continua sendo o eixo central de tudo.
Pra começar, quem é o Felipão dentro e fora do skate?
“Eu sou apenas um rapaz Latino-Americano sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e sou do interior.”
Como era o skate quando você começou, lá no fim dos anos 80?
Era marginalizado, difícil de ter informações, mas ao mesmo tempo puro, verdadeiro e realmente tinha que amar muito para fazer acontecer seja andando ou querendo trabalhar com ele, no Brasil sempre tivemos nossos eventos, marcas, revistas, um “organismo” paralelo ao que acontecia no mundo…e desde sempre menos valorizado que os gringos…
O que te fez não só andar, mas começar a construir coisas dentro do skate?
Meu primeiro contato foi na infância querendo ter um skate para andar e ganhei bem cedo do meu padrinho, na época não tinha muita coisa para se fazer, poucas ruas asfaltadas… era outro mundo kkkkkkk na sequência meados dos anos 80 o Vale se torna uma região bem forte na cena, por conta dos eventos em Guaratinguetá, Bigolandia em Jacarei e Skatistas da região em destaque… não precisei de muito tempo para descobrir que não tinha o dom de manobrar como alguns amigos e de ir muito além de somente se divertir andando (vento na cara) ao mesmo tempo já existiam lojas/crews em algumas cidades que me inspiraram a aprender primeiro a fazer silkscreen, querer fazer marca, ter Skateshop, criar a primeira Skate Bar do Brasil…
Como nasceu a Posso! Skateboards e o que ela representava naquela época?
Nasceu da necessidade da gente ter uma crew, ter voz, mesmos sendo do Vale, interior de SP, as informações sempre demoravam muito para chegar e éramos ou somos até hoje “tirados” de caipiras, a diferença é que hoje temos mais orgulho disso kkkkkk. Eu sempre quis também que fosse em português, uma coisa realmente Brasileira sem “pagar pau” pra gringo, Posso! era uma gíria usada pelos Ibira Boys, alguns deles foram com a minha cara e liberaram para usar o nome, o que para mim era mais importante que o INPI.
O Posso Skate Bar virou lendário — o que rolava ali que era diferente de tudo?
Ser verdadeiro e dar voz as minorias que sempre fomos e com muito orgulho do que vestíamos, escutávamos… tudo isso com o Skate sendo o pilar central da cultura urbana marginalizada que tanto amamos, ali cada um podia ser o que queria ser sem discriminado pela sociedade, bandas do underground brasileiro e mundial, juntamente com Skatistas de toda parte adotaram o bar, tudo isso acontecendo na frente do Quartel General da cidade, dai pra frente foram inúmeras historias…
Quando você começou a criar eventos, qual era a ideia: competição ou vivência?
Fazer evento sem vivencia não é evento… meu primeiro campeonato de Skate foi em 1987 na escola que leva o nome do meu bisavô, já com a única banda punk da cidade tocando. kkkkkk
O que faz eventos como Mini Ramp Pro Attack e Big Pool Day serem tão marcantes?
Na verdade, eles ainda são. Ambos e em tudo que faço relacionado ao Skate é que quem realmente manda são os próprios Skatistas pois eles é quem são os verdadeiros artistas e tudo é feito com muito amor.
Em que momento você percebeu que o skate estava virando algo maior no Brasil?
Difícil generalizar a palavra Skate em somente uma “vertente”, ele sempre foi grande pelos(as) Skatistas que temos o mundo aprendeu muito cedo que teria que respeitar a resiliência dos Skatistas Brasileiros, nos dias de hoje temos dos pontos distantes um lado a popularização do Skate através dos campeonatos e de outro lado o mercado mundial “derretido” que é uma merda, pois culturalmente o Skate tem muito mais a mostrar do que somente a competição em si, este é o maior desafio atual.
Como foi levar essa vivência da rua pra dentro de grandes eventos como o STU?
Eu vejo com naturalidade, considero o STU a maior plataforma de Skate do mundo, a gente se preocupa em não somente ter a vivência do campeonato, mas sempre ter a arte, música, mercado, cultura urbana envolvida de alguma maneira…o Brasil nunca teve nada parecido em termos de estrutura, premiação… somos o único circuito Nacional do mundo e as nossas etapas nacionais são maiores que muitos eventos mundiais, sem falar nos nossos outros “produtos” que estão por vir, só bomba, aguardem… a gente não cansa de inventar e realizar e o que é mais importante para nos é colocar o Skateboard na primeira prateleira dos esportes, com a valorização em vários âmbitos que o Skate e os Skatistas realmente merecem.
Hoje dentro da Confederação Brasileira de Skate, qual é sua principal missão?
Primeiro assimilar a parte política, pois isso nunca fez parte da minha vida, apesar de eu a vida inteira apoiar a entidade. Hoje o que mais acredito é realmente colocarmos de volta a “escada” para quem quer seguir a carreira de competições do mirim ao profissionalismo, isso se perdeu nos últimos tempos e o maior prejudicado vai ser sempre os Skatistas com carreiras cada vez mais curtas. Outro ponto muito importante é lutarmos para o nosso mercado/indústria, não adianta querer medalhas se a gente não tiver incentivo para a nossa indústria brasileira, Skate shops, importações, se esta engrenagem não funcionar nada vai acontecer em um espaço curto de tempo.
Presidente da CBSK Eduardo e Felipão Diretor de Esportes
O que mais te preocupa com o crescimento e a profissionalização do skate?
A “bomba” já explodiu, popularizou se a competição e a cultura que vivemos não acompanhou esta popularização, resultando na crise mercadológica mundial. Eu acho que ainda faltam profissionais do Skate em todos os setores da indústria!
O skate olímpico fortalece ou corre o risco de descaracterizar a cultura?
Aprendi a respeitar o Skate nas Olimpiadas por causa da minha Tia avó de 93 anos (RIP) que me parabenizou por ver o Skate lá kkkkkkkk e pelos Skatistas que fazem o corre para fazerem parte, o Skate logo de cara já mostrou ao mundo o Fairplay que já não existia mais nos outros esportes olímpicos, somos o único esporte que um torce pelo outro! (isso é inquestionável) Olimpiadas é competição a parte cultural é nossa responsabilidade.
A rua ainda é a base de tudo? Por quê?
Sempre vai ser, quem não tem no seu DNA, dificilmente vai brilhar ou se “perpetuar” a história já mostra isso a muito tempo até mesmo com todas as mudanças que vivemos nestes novos tempos isso conta muito do estilo até o caráter dos Skatistas…profissionais do Skate, se não tem o “meio fio” no CV fica mais difícil…cair e levantar.
O que significa, na prática, a frase “Tudo posso na rua que me fortalece”?
Significa que o que acontece na rua é verdadeiro (onde você chora e a mãe não vê) a rua cobra, mas também respeita quem é de verdade…com isso criamos o único evento itinerante do país, TPNRQMF (Tudo Posso! Na Rua Que Me Fortalece).
Quem foram as pessoas mais importantes na sua caminhada dentro do skate?
Foram muitas pessoas, mas tudo começou com meu Padrinho Aluísio (RIP) que me deu meu primeiro Skate, me levou para aprender silkscreen, fabricas de shapes, campeonatos, primeira loja… foi a minha base e dos meus amigos kkkkk, minha Família que eu Amo, e sei o quanto foi difícil para eles eu não querer seguir o que a sociedade impõe… sou muito grato a isso, fez muita diferença na minha vida…Namorada, filhos e agora meu netinho de 6 meses que já mudou minha vida.
O que o Beto Olliegator representa na sua história?
Representa a resiliência e que o amor ao Skate realmente salva vidas, ele se foi e grande parte da minha memória foi junto. Faz muita falta OBB(OnlyBigBrothers).
O que mudou no skate e o que nunca pode mudar?
Mudou tudo. kkkkkkk Não pode mudar é a diversão estar em primeiro lugar, pois é assim que o Skate deve entrar na vida das pessoas, qualquer outra forma que não seja desta maneira pode ter certeza de que a frustação vai chegar pesada, seja para pais, coachs e infelizmente, mas principalmente para os Skatistas.
Depois de mais de 30 anos, o que ainda te motiva a continuar no corre?
Ver o sorriso na cara das pessoas.
Que conselho você daria pra quem tá começando agora no skate?
Divirtam se e também o mesmo que dou para meus filhos ou pra quem está próximo: RAIZES e ASAS são a base da vida.
Se tivesse que resumir o skate em uma ideia só, qual seria?
“PRA MIM NADA, PRA NOISSSS TUDO!”
:::::: Felipe Vital ::::::
A história de Felipe Vital é, na prática, a história de uma geração que construiu o skate brasileiro sem estrutura — mas com visão. Uma geração que transformou dificuldade em identidade e abriu caminho para tudo o que existe hoje.
Num momento em que o skate ganha cada vez mais visibilidade e espaço, nomes como Felipão são fundamentais para lembrar de onde tudo veio — e, principalmente, para garantir que o futuro não se desconecte da sua essência.
Porque antes de qualquer pódio, patrocínio ou transmissão ao vivo… sempre foi — e ainda é — tudo na rua.
Fotos: Julio Detefon / Pablo Vaz/ Vinicius branka e Arquivo pessoal
Matéria exclusiva para Skate Vale Brasil.
PorSagaz
/// Diretor de Arte por profissão e Skatista da vida.
Conhecido como Julio Sagaz no Vale do Paraíba/SP, skatista overall desde 1995, passando pelas marcas Ramp Real Street/Santos, Posso! Caçapava, Posso/Adidas, Posso/RedNose e DoubleM. Atualmente é diretor da agência de publicidade e criador do maior portal de skate do vale do Paraíba a Skate Vale Brasil. O portal se destaca não apenas por divulgar os principais picos de skate, pistas, principais eventos e talentos do skate, mas também por ser a única mídia de skate que inclui LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) em sua plataforma, promovendo a inclusão e acessibilidade.
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