Entre código e concreto: a jornada de Max no skate brasileiro

De um sítio no interior de São Paulo às pistas internacionais, Anaximandro “Max” construiu sua trajetória no skate com base em persistência, apoio familiar e conexões que surgiram ao longo do caminho. Há mais de uma década sobre o shape, o skatista de Sorocaba transformou a paixão descoberta na adolescência em um projeto de vida — equilibrando a rotina como desenvolvedor de software com a busca por evolução no street. Entre conquistas, lesões e experiências fora do país, Max representa uma geração que vai além da técnica: carrega no skate uma ferramenta de identidade, superação e construção de comunidade.

/// Fotografo: @fisheyeskt

Para começar, se apresenta pra galera: quem é o Max dentro e fora do skate? Salvee, meu nome é Anaximandro, mas geral me conhece como Max, tenho 27 anos e moro em Sorocaba-SP

Você anda de skate há mais de uma década. Como foi o início dessa caminhada? O que te fez começar e o que te fez continuar?

Na época eu morava com meus pais em Itapeva, no interior de São Paulo, e meu primeiro contato com o skate foi com uns 15, 16 anos vendo o pessoal andar na quadra do centro da cidade. Como a gente morava num sítio distante e não tinha internet em casa, eu não fazia ideia do que era o skate ou da cena como um todo.

/// Fotografo: Arquivo Pessoal

Minha mãe naquele mesmo ano me deu um skate de Natal, e eu lembro que fiquei tão empolgado que já na mesma noite fui tentar andar na rua do sítio. No dia seguinte já fui atrás do pessoal para tentar andar junto, e foi aí que comecei a descobrir o skate de verdade sabe, vendo video parts na casa dos amigos, conhecendo os skatistas e as marcas.

O que sempre me motivou a continuar foi a paixão que sinto em andar de skate, mas principalmente as pessoas que acreditaram em mim. E a pessoa que mais me apoiou foi minha mãe. Ela nunca entendeu muito do skate e nem era fã do esporte, mas sempre acreditou em mim. Quando passei pela minha primeira cirurgia de lesão, ela esteve do meu lado em cada momento da recuperação, e foi esse apoio que me fez voltar mais forte e confiante do que nunca.

Em 2025 você completa 11 anos no skate. O que mudou na sua visão sobre o skate ao longo desse tempo?

O que mais me surpreende olhando pra trás é que a paixão nunca mudou. Aquele moleque de Itapeva que ficou andando de skate na rua do sítio sentia a mesma coisa que eu sinto hoje quando subo no skate. O que mudou talvez tenha sido tudo ao redor. Aprendi que evoluir exige consistência, dor, humildade e foco todos os dias, não só talento. Aprendi a acreditar em mim mesmo quando as circunstâncias falavam o contrário. Hoje vejo o skate como algo muito maior do que antes. Ele moldou quem eu sou, os valores que carrego e as amizades que tenho.

/// Fotografo: Goes Lens

Você é atleta de marcas como Maniastreetwear e Element Brasil. Como surgiu essa conexão com as marcas e o que isso representa pra você?

Sempre acreditei que quando você sabe aonde quer chegar e não mede esforços, acaba encontrando pessoas com a mesma visão e com a Mania e a Element foi exatamente assim.

A Mania, surgiu num momento em que eu estava sem patrocínio. O Gui já me conhecia de alguns eventos e um amigo em comum fez essa ponte pra gente trocar uma ideia. E quando a gente conversou sobre a visão da marca e o que queriamos construir, ficou claro que estávamos alinhados sobre. O Gui e o Jeff são dois caras que acreditam demais em mim e me dão todo o suporte pra continuar me puxando e evoluindo, sou muito grato a eles.

Já com a Element é quase surreal. Sempre fui muito fã da marca, desde a época do Bam, então estar aqui hoje representa um sonho realizado. E sem palavras para o Xapa e o Renan, que foram os caras que acreditaram em mim e falaram comigo sobre. Sei que sou o caçula da equipe, mas pode ter certeza de que vem muita coisa boa por aí.

/// Fotografo: Arquivo Pessoal

Nessa caminhada, teve alguém especial que te treinou ou te ajudou muito? Quem é essa pessoa e qual a importância dela na sua vida?

Tem duas pessoas que sou muito grato de ter encontrado, o Fabio Castilho e o Xaparral.

O Castilho me treinou numa fase muito importante. Porque além de me ajudar a evoluir tecnicamente, nas nossas trocas de ideia, ele sempre me ajudou a lidar com muitas inseguranças que eu carregava, tanto pessoais quanto dentro do skate. E foi justamente essa evolução que me levou a ganhar um evento da TNT, que na época tinha o Xapa como embaixador.

Eu lembro de uma conversa com o Xapa logo no começo que a gente virou amigo, nem sei se ele lembra disso, mas eu perguntei pra ele se achava que eu tinha chance de ser Pro, viver do skate, e contei sobre o que eu sonho em alcançar. E eu havia acabado de mudar de cidade, não tinha patrocínio nenhum, comecei mais tarde no corre, com muitas responsabilidades também, e nessas horas a gente precisa de uma resposta sincera e um choque de realidade.

Ele foi honesto sobre, disse que eu conseguiria, mas dependeria só de mim e do quanto eu ia investir nisso, e me disse o que eu precisava melhorar. Aquilo na época me deu uma clareza e um gás enorme sabe. Sem falar que a família dele sempre me tratou muito bem também, sempre me apoiaram.

Você teve a oportunidade de participar em Tampa, um dos maiores eventos de skate do mundo para amadores. Como foi essa experiência? O que você sentiu naquele momento?

Sendo bem sincero, me senti um moleque quando fui a primeira vez, porque eu cresci assistindo o Tampa Pro e o Am, e poder ter a oportunidade de correr o evento, de sair nos vídeos, ver e sentir a energia do evento e conhecer a galera lá foi surreal.

/// Fotografo: Arquivo Pessoal

Conta pra gente um momento inesquecível que o skate te proporcionou. Aquele que marcou sua vida de verdade.

É difícil escolher um só, mas acho que o Phoenix Am em 2024, foi um dos mais marcantes.

Foi meu segundo evento internacional e eu passei nas cabeças pra semifinal, e o que me marcou foi que acertei tricks que nem tinham tentado nos treinos e tudo pareceu só fluir naquele dia.

Mas o que mais me marcou foi o que eu vivi durante os dias de LA e Phoenix acho, eu conheci o Taiga Nagai, um skatista incrível do Japão, e a gente acabou virando amigos e treinando junto durante o evento, como ele não falava muito inglês, a gente se comunicava pelo tradutor do celular, e foi hilário e muito daora ao mesmo tempo. Também pude competir ao lado do Matheus Mendes, skatista brasileiro que brinca demais no skate, e o pai dele Wallace, que é Pro de longa data, me apoiou muito naquele dia.

Lembro de ver o Julian Agliardi pela primeira vez lá, ele e o pai dele foram muito gente boa comigo, e o pai dele me deu uns puxões de orelha pra eu acreditar mais em mim e fazer acontecer também.

E a Laura, organizadora do evento, que me encaixou de última hora e veio pessoalmente me parabenizar quando passei, e até hoje ela me convida todo ano pra poder voltar.

Foi um daqueles períodos que você guarda pra sempre não só pelas conquistas, mas pelas pessoas sabe.

O skate street é sua base. Quem são suas maiores referências no STREET e por quê? O que te inspira nesses skatistas?

Minhas inspirações são o Xaparral, Gabi Mazetto, Felipe Gustavo, Ismael Henrique, Wallace Gabriel e todos os meus amigos. E acredito muito que eu me inspiro muito neles pelas mesmas razões, de serem pessoas que correm atrás e fazem acontecer.

Você está envolvido atualmente em algum projeto de skate? Pode ser social, com marcas ou algo pessoal? Conta mais pra gente.

Estou trabalhando num projeto com a Element, e junto com a Red Bull e a Mania estamos organizando alguns eventos pra cena local da minha cidade. Não vou entregar muito ainda, mas logo mais vai sair

/// Fotografo: Tommy Rosa

Qual é o seu maior sonho dentro do skate hoje?

Quero produzir mais video parts e mostrar mais do que sou capaz de fazer. Quero continuar movimentando a cena local e, acima de tudo, passar pra Pro, é o sonho que guia em tudo o que faço hoje e o mesmo sonho daquele moleque de itapeva.

Como você enxerga o cenário do skate brasileiro atualmente? O que pode melhorar?

O cenário está meio complexo por diversos fatores, mas o que mais me chama atenção é a falta de gente que realmente faça acontecer, tanto do lado dos atletas quanto das marcas. Apoiem as marcas, atletas, amigos que realmente estão investindo e fazendo acontecer.

/// Fotografo: Joey Daminelli

Se você pudesse deixar um recado para a nova geração que está começando no skate, qual seria?

Aproveitem o skate pelo que ele é. Se divirtam, façam amizades, andem da forma que se sentem bem. E corram atrás do que sonham sem medo, eu vim do interior, sem internet, sem estrutura, e cada sonho que realizei começou porque eu acreditei que era possível e conheci pessoas que tambem acreditaram em mim, não to falando que vai ser fácil, mas todo mundo pode.

Agora uma pergunta que você pode responder livremente: o que o skate representa na sua vida hoje?

O skate faz parte de quem eu sou. Me ajudou a me encontrar, me trouxe pessoas incríveis, me levou a lugares que nunca imaginei conhecer e me ensinou que com dedicação e uma paixão inabalável você pode ir muito mais longe do que imagina.

/// Fotografo: Arquivo Pessoal

Max é o retrato de uma geração que vive o skate de forma genuína, conectando rua, profissão e propósito. Sua trajetória mostra que o skate vai além das manobras — é construção de identidade, superação e conexão com o mundo.

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Por Sagaz

/// Diretor de Arte por profissão e Skatista da vida. Conhecido como Julio Sagaz no Vale do Paraíba/SP, skatista overall desde 1995, passando pelas marcas Ramp Real Street/Santos, Posso! Caçapava, Posso/Adidas, Posso/RedNose e DoubleM. Atualmente é diretor da agência de publicidade e criador do maior portal de skate do vale do Paraíba a Skate Vale Brasil. O portal se destaca não apenas por divulgar os principais picos de skate, pistas, principais eventos e talentos do skate, mas também por ser a única mídia de skate que inclui LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) em sua plataforma, promovendo a inclusão e acessibilidade. 🛹💥🤟🌎📌📸 #juntossomosmaisfortes #skatesalva