André Barros — Skate, Família, Saúde e Visão de Futuro

Empresário, organizador e curador técnico do STU National, André Barros é uma figura central no skate brasileiro. Pai de Pedro Barros, um dos maiores nomes do skate mundial, André construiu sua trajetória unindo esporte, gestão, família e uma visão consistente sobre corpo, mente e propósito.

Foto: Arquivo pessoal

Origem, Valores e Caminhada

André, olhando para trás, qual momento da sua vida mais moldou quem você é hoje, como pai e como gestor esportivo?

Não há um tempo determinado para isso. Existe uma evolução natural do que eu era, do que eu acreditava e do que eu tinha ao meu redor. Tive uma educação maravilhosa e, com alguns ajustes, eu já tinha uma estratégia de como educaria meu filho. No skate, as coisas foram acontecendo. Tive a sorte de estar rodeado de pessoas importantes nesse desenvolvimento e a audácia de investir independentemente de resultados financeiros, pois, na época, estava preocupado com o tipo de estilo de vida que gostaria de criar para o meu filho, entendendo que isso era e é o que importa na vida de uma pessoa. Como gestor, minha experiência de trabalho, pois comecei cedo, sempre me ajudou a ter a visão de onde ir e do que precisava.

Quais valores você carrega como inegociáveis, tanto na vida pessoal quanto no trabalho com o esporte?

Não estamos sozinhos; vivemos em uma sociedade. Jamais farei com os outros o que eu não gostaria que fizessem comigo. Ser honesto com meu ideal e não vender quem eu sou. Minha vida, meu estilo, minhas referências jamais mudarão por dinheiro. Não sou alimentado por ele.

Como você vê o futuro das novas gerações e qual o papel e a importância do gestor esportivo na carreira de jovens atletas considerados promissores?

O futuro das novas gerações terá atletas de altíssimo nível de performance, mas com péssima performance como seres humanos reais se não tiverem uma família sólida acompanhando.

A internet e as narrativas tomaram conta da sociedade e, se antes tínhamos uma educação preparando crianças para a realidade, hoje temos uma educação fragilizando essa realidade.

O gestor pode ser um perigo ou uma ferramenta. O que vai definir se é bom ou não é a razão. Se o gestor é um devorador de números, será sempre ruim; se é uma pessoa que se orgulha de fazer parte de uma construção de vida, pode ser a melhor ferramenta.  A maioria dos benefícios de uma criança vem em longo prazo, e a maioria dos gestores quer dinheiro na conta amanhã.

    Corpo, Mente e Saúde

    Você sempre fala muito de equilíbrio. Como você cuida hoje do corpo e da mente no dia a dia?

    Temos que entender de onde viemos, como viver e como queremos morrer. Acreditando em Deus ou não, somos parte da coisa mais perfeita do mundo: a natureza. Usar aquilo que nos foi entregue na nossa criação e ter muito cuidado ao usar aquilo que foi feito pelo homem depois. Todos vamos morrer, mas não precisamos passar por períodos sombrios antes da morte. Viver o presente intensamente, mas preparar-se para viver isso até a morte, é tão importante quanto. Não adianta colocar 50 litros de gasolina no carro e acelerar sem destino até acabar a gasolina e, talvez, você ficar preso em um deserto ensolarado, sem água e comida, e definhar até a morte. Melhor calcular, planejar e ir colocando gasolina sempre que necessário para chegar ao destino. A mesma coisa com a vida: repor o que se gasta no dia a dia. Isso está na mente e no físico. Para isso, eu reponho meu sono, minha tranquilidade, meus macronutrientes, nutrientes, vitaminas, meus músculos, articulações, calma e tudo aquilo que uso intensamente no dia a dia. Resumindo: dieta Animal Based, LPF (trabalho de respiração), exercícios de mobilidade e musculação, e muito cuidado com o sono.

    Vídeo: Arquivo pessoal

    A convivência com o alto rendimento mudou sua relação com saúde, alimentação e descanso? O que você aprendeu ao longo dos anos?

    Na verdade, não. Infelizmente, o skate não promove isso — ou melhor, não promovia. Foi a vida mesmo. Sou apaixonado pela minha família: meus pais e irmãos, filho, esposa e família, amigos. E isso, junto da minha vida maravilhosa, me fez perceber que quero continuar assim da melhor maneira possível até meu destino final, a morte. Então, foi tudo na base dos estudos. Há mais de 10 anos venho estudando como ser uma versão melhor de mim amanhã. Quero continuar fazendo tudo que faço de bom até o fim.

      STU National e Gestão

      O STU National se consolidou como um dos principais circuitos do país. Qual é a essência do evento na sua visão?

      Foto: Arquivo pessoal

      O STU é o sonho que está sendo realizado. Tudo aquilo que vimos, eu e meu filho, como pessoas que viveram intensamente do pior ao melhor do skate mundial, foi usado para modelar o STU a ser o que é e o que vai ser. Tive a sorte de o fundador do STU, Diogo Castelão, me convidar para essa caminhada, pois ele, que tinha uma experiência absurda em eventos, também tinha o principal: a humildade de entregar a parte técnica para quem entende e de somar a experiência em eventos com a visão do skatista.

      Em primeiro lugar, o skatista sempre — mas entendendo que o empreendimento tem que estar saudável para poder ajudá-los. Essa ajuda vai desde o melhor possível financeiramente (premiação) até a estrutura geral. Eles são as estrelas e serão os principais beneficiários. Queremos ver pistas de skate em todo o Brasil e ter um circuito que ofereça visibilidade para o profissional; assim, entregamos algo para todos e algo para quem sonha ser profissional. Em várias ocasiões você aparece literalmente “colocando a mão na massa”.

      Em várias ocasiões você aparece literalmente “colocando a mão na massa”. Que tipo de liderança você acredita no esporte?

      O líder no esporte, ou em qualquer situação, é aquele que entende que depende de todos. Liderança não é uma escolha própria, e sim a condição necessária para algo se desenvolver. Se eu tenho mais conhecimento em algo, lidero; mas, na minha liderança, há muitas outras pessoas liderando o que eu não sei. É entender como funciona uma equipe. Todos estão no mesmo barco e, se alguém precisa de ajuda, todos devem estar prontos para ajudar. Se a limpeza não veio, não posso estar limitado ao meu cargo.

      Pensando no futuro, o que você projeta para o STU National até 2026? Há novos formatos, cidades ou conexões internacionais no radar?

      Novos lugares, consolidar cada vez mais nosso projeto como uma das maiores plataformas de skate do mundo. Estamos com muitas novidades, como o SB1, mudanças no PRO TOUR STU e outras coisas que não posso falar agora. Vai ser um choque para o mundo do skate.

        Família e Skate de Alto Rendimento

        Como é equilibrar o papel de pai com a carreira de um atleta de nível mundial, como o Pedro?

        Fácil. Faço o que amo, e ele também. Somos muito cúmplices de tudo, fazemos tudo juntos, decidimos tudo juntos e fazemos o que realmente somos e amamos. O difícil são sempre as demandas burocráticas, a falta de conhecimento de estruturas que fazem parte do círculo, mudanças políticas, concorrência desleal, gente maldosa e todas as dificuldades empresariais. Faz parte. O importante é saber e se preparar para viver isso.

        O que o skate ensinou sobre educação, limites e liberdade dentro de casa?

        O skate me ensinou uma única coisa: cair, sentir dor e se levantar para tentar de novo. O resto ninguém aprende com o skate; aprende com a sua comunidade. O skate tem milhares de comunidades pelo mundo, cada uma diferente da outra, e esse papo de que é tudo junto é mentira — papo furado, narrativa de fracos. Quando o bicho pega mesmo, cada um vai para o seu lado. Falam sobre preconceito, mas são muito preconceituosos — e pensam que preconceito está somente entre raças; mas, quando aparece alguém “fora do skate”, o preconceito é o mesmo. Então, no fim, você aprende a cair, se levantar, sentir dor e ir de novo, mas a sua comunidade pode te ensinar muito.

        Em momentos decisivos da carreira do Pedro, qual foi o seu papel: mais técnico, mais emocional ou mais silencioso?

        Técnico foi fazer ele sentir confiança em mim e no meu conhecimento. Emocional foi fazer ele sentir que perder não faria a menor diferença nas nossas vidas e que ninguém, a não ser ele mesmo, teria o direito de se sentir chateado.

        Silencioso foi ganhar a medalha de prata nas Olimpíadas e, pela primeira vez, eu longe dele. Esse foi o grito mais silencioso de todos: “O RIO TAVARES MOTHER FUCKERS É FODA”, e meu filho era quem ia deixar isso na história — ou não. Surf, Natureza e Lifestyle

        Surf, Natureza e Lifestyle

        Além do skate, o surf também faz parte da sua vida. O que o surf representa para você?

        Vai andar de skate. O surf não é para qualquer um. No esporte como carreira, é igual ao skate: tá uma merda. Se você vive em uma comunidade ou família de surf, aí sim, continue esse legado; se não for esse o caso, não aprenda para ser um Gabriel Medina: aprenda para estar com a natureza, para encontrar sua melhor versão.

        Foto: Arquivo pessoal

        Quais lugares você mais gosta de surfar no Brasil? E fora do país, existe algum pico especial?

        Canto das Aranhas, Florianópolis. Eu moro na Nicarágua e escolhi por causa das ondas. Skate e surf têm muito em comum.

        Foto: Arquivo pessoal

        Skate e surf têm muito em comum. O que um esporte ensina ao outro, na sua experiência?

        O skate ensina o que é uma sessão de verdade: estar junto com pessoas de qualquer idade, etnia ou classe social e celebrar aquele momento enquanto está na sessão. A cultura geral do skate é muito abrangente — escola de arte, música, moda e até linguagem. Eu tento passar isso para o surf, que é um esporte muito egoísta. O clima no surf é fácil de estar pesado: poucas ondas disponíveis, pessoas sem educação, localismo e diversos outros fatores que funilam para uma vibe negativa. Tento, onde estou, no grupo em que estou, levar a vibe do skate. O skate ensina muito mais para o surf do que vice-versa.

        Para quem curte surf hoje, que dica você daria — seja para evoluir no esporte ou para aproveitar melhor o lifestyle?

        Vai andar de skate. O surf não é para qualquer um. No esporte como carreira, é igual ao skate: tá uma merda. Se você vive em uma comunidade ou família de surf, aí sim, continue esse legado; se não for esse o caso, não aprenda para ser um Gabriel Medina: aprenda para estar com a natureza, para encontrar sua melhor versão.

        Visão, Legado e Futuro

        Olhando para o cenário do esporte hoje, o que mais te anima e o que mais te preocupa?

        O que mais me preocupa é o lado ruim da internet. Sem dúvida, fode o mercado e fode o ser humano como pessoa. Menos conexão real e muita conexão frágil, criada por narrativas sem certeza de veracidade.

        O que mais me anima é que sou envolvido com a LayBack, com o STU e com a Dare, que são projetos que tentam impactar de verdade as pessoas e usar nosso inimigo (internet) a favor.

        A LayBack, sem dúvida, é uma das maiores comunidades do skate hoje. Fizemos muitas histórias. Abrimos pistas pelo Brasil, unimos pessoas. Criamos um case de negócio em que a família inteira pode ir dar o rolê: pista de skate, restaurantes, música ao vivo, serviços como tatuagem, estúdios, barbearias etc., tudo junto. O filho, o pai e o avô podem curtir a mesma vibe em um lugar sem barreiras, sem preconceito. Eventos incríveis e produtos com as maiores marcas do mundo.

        O STU é o projeto mais ambicioso, levando para o skate o maior padrão de premiação e deixando legado por onde vamos. Remodelamos o formato para algo muito mais atrativo e intenso, ao mesmo tempo em que mantivemos ações importantes nas ruas e em outras modalidades, difundindo o skate como nenhuma outra empresa de eventos jamais fez. O STU é tudo que vi de bom nos maiores eventos do mundo, acrescentando o que podia ser muito melhor e não tinha. Um projeto que ainda vai longe, e os novos desafios vão surpreender a todos.

        A Dare é um filho novo, totalmente online, indo contra aquilo que mais robotizou a população: as redes sociais. A Dare é um aplicativo que tira você do sofá para atividades. Pode estar em qualquer lugar do mundo e qualquer atleta ou praticante de surf, skate e outros esportes pode participar e ganhar reconhecimento, tendo a chance de ganhar com o esporte sem precisar investir fortunas em viagens para competir ou aparecer. Um espetáculo! Imagina que alguém na Etiópia pode ser reconhecido e, de repente, ganhar até um patrocinador porque teve a oportunidade de mostrar seu talento para o mundo.

        Quando você pensa em legado, como gostaria de ser lembrado dentro e fora do skate?

        Quero que se foda. Já pensei muito nisso, mas a minha evolução mais difícil é o ego. É o ego que pede legado, ser lembrado, ser notado e julgado positivamente, mas hoje meu legado só interessa ao meu filho e à minha família, que vai ter que viver com o meu passado até a morte deles. O resto é o presente. Quero ajudar agora, fazer agora.


        Entre pistas, eventos e família, André Barros construiu uma trajetória onde o esporte é ferramenta de formação humana. Uma visão que vai além de medalhas e rankings — e aponta para um futuro onde corpo, mente e propósito caminham juntos.

        /// Entrevista realizada com o apoio

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        Por Sagaz

        /// Diretor de Arte por profissão e Skatista da vida. Conhecido como Julio Sagaz no Vale do Paraíba/SP, skatista overall desde 1995, passando pelas marcas Ramp Real Street/Santos, Posso! Caçapava, Posso/Adidas, Posso/RedNose e DoubleM. Atualmente é diretor da agência de publicidade e criador do maior portal de skate do vale do Paraíba a Skate Vale Brasil. O portal se destaca não apenas por divulgar os principais picos de skate, pistas, principais eventos e talentos do skate, mas também por ser a única mídia de skate que inclui LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais) em sua plataforma, promovendo a inclusão e acessibilidade. 🛹💥🤟🌎📌📸 #juntossomosmaisfortes #skatesalva #mapadaspistas #valedoparaibasp