Entrevista com Taise Araújo — Fisioterapeuta Traumato-Ortopédica e Esportiva
O Skate Vale Brasil conversou com Taise Araújo, skatista há 36 anos, fisioterapeuta especialista em Traumato-Ortopedia e Fisioterapia Esportiva, presidente da Associação Brasileira de Mulheres Skateboard e juíza/diretora de prova atuante na CBSk. Referência no cuidado com atletas dentro dos campeonatos, Taise construiu uma trajetória que une experiência prática, ciência do movimento e vivência real no skate.
Ao falar sobre o que sustenta a verdadeira longevidade no esporte, ela conecta prevenção de lesões, performance e cultura de resistência. Seu trabalho mostra que cuidar do corpo não afasta o skatista da essência do skate — pelo contrário, garante que ela continue viva, forte e em evolução.

Foto: Thiago Da Luz
CORPO & SKATE
O skate exige um tipo de corpo diferente de outros esportes. O que você observa na prática clínica quando atende skatistas?
O corpo do skatista é moldado pelo impacto e pela instabilidade. Na prática clínica, observo reação rápida, equilíbrio refinado, força explosiva e mobilidade construída na vivência. Porém, também é comum encontrar sobrecargas em tornozelos, joelhos, quadril e coluna, porque o skate combina impacto repetitivo com instabilidade constante — algo que não é treinado apenas andando na pista.
Quais adaptações físicas o corpo do skatista precisa desenvolver para suportar impacto, repetição e progressão?
Cada manobra exige microajustes musculares contínuos, então o corpo precisa desenvolver absorção de impacto, estabilidade profunda e recuperação rápida. Não é só força: é controle neuromuscular, coordenação fina e resistência à repetição. Quando essas adaptações não são treinadas fora da pista, o corpo entra em desgaste progressivo. A fisioterapia transforma resistência em estrutura — prepara o atleta para continuar evoluindo com segurança, potência e longevidade.

DOR, CULTURA E CONSCIÊNCIA
Por que a dor ainda é tão normalizada dentro do skate?
A dor é normalizada no skate porque resistência sempre fez parte da identidade do esporte. Cair, levantar e continuar criou uma cultura de orgulho em aguentar. O problema não é o impacto — é transformar dor crônica em rotina. Na clínica eu vejo muitos skatistas convivendo com dor como se fosse obrigatória, mas dor ignorada não é força: é desgaste acumulado que acaba virando lesão e afastando o atleta da pista.
Como mudar essa mentalidade sem afastar o skatista da essência e da vivência do skate?
Mudar essa mentalidade não tira a essência do skate, amadurece a relação com o corpo. O skatista que se cuida não é menos raiz — ele preserva a própria trajetória. Quando a fisioterapia é vista como ferramenta de performance, e não de fraqueza, o atleta continua vivendo o skate com intensidade, mas com consciência. E consciência não diminui o skate — ela prolonga.
ROTINA, TREINO E REPETIÇÃO
O excesso de repetição de manobras é hoje uma das principais causas de lesões. Como equilibrar evolução técnica e cuidado com o corpo no dia a dia?
A repetição é essencial para evoluir no skate, mas sem recuperação ela vira desgaste acumulado. O corpo aguenta muito, mas não é infinito: cada tentativa gera microlesões que, sem equilíbrio entre carga e cuidado, transformam lesão em consequência previsível.
Equilibrar evolução técnica com saúde significa treinar com consciência — incluir fortalecimento fora da pista, mobilidade, descanso ativo e leitura corporal. O corpo sempre avisa antes de quebrar: rigidez, dor persistente, perda de potência. Quem aprende a reconhecer esses sinais evolui com mais consistência.
Cuidar do corpo não desacelera o progresso, sustenta o progresso. Treinar com inteligência permite repetir mais, aprender mais e continuar andando. No skate, continuidade vale mais do que intensidade isolada.
RECOVERY & PREVENÇÃO
O recovery ainda é visto como algo secundário no skate. Por quê?
O recovery ainda é visto como secundário porque o skate nasceu na improvisação, valorizando resistência bruta. Só que o skate de hoje é muito mais intenso do que há 20 anos: mais impacto, mais repetição, mais exigência física. O corpo precisa acompanhar essa evolução, e recovery deixa de ser luxo para virar manutenção básica.
Na prática, recovery é estratégia. Ele evita o acúmulo de desgaste invisível que vira lesão. Quando entra na rotina, o atleta ganha consistência: menos dor residual, menos inflamação e mais confiança para evoluir. A performance sobe porque o corpo responde melhor, e a carreira se alonga.
O que muda na performance e na longevidade do skatista quando o recovery vira parte da rotina?Recovery não diminui intensidade — ele sustenta intensidade. E longevidade, no skate, é a maior vitória: continuar andando forte quando muitos já precisaram parar.
CAMPEONATOS & PRESSÃO
Dentro de campeonatos, quais são as situações mais críticas que você enfrenta como fisioterapeuta?Em campeonato tudo acontece no limite: dor acumulada, adrenalina alta e pouco tempo para performar. As situações mais críticas são quando o corpo claramente não está pronto, mas o atleta quer competir mesmo assim. Nesses momentos a fisioterapia deixa de ser só técnica — vira responsabilidade humana, porque ali existem sonhos, carreira e futuro em jogo.

Foto: Arquivo Pessoal
Qual é a decisão mais difícil entre proteger o corpo do atleta e respeitar o momento competitivo?
A decisão mais difícil é equilibrar proteção e respeito pelo momento competitivo. Meu papel não é proibir, é orientar com clareza: mostrar risco, limite e oferecer suporte dentro do que é seguro. Às vezes isso significa segurar, às vezes liberar com estratégia. O critério é sempre o mesmo: preservar a continuidade da carreira. Uma medalha não vale uma sequela — o verdadeiro cuidado é garantir que o atleta possa voltar para muitas próximas provas.
SKATE OLÍMPICO
O que mudou no corpo do skatista depois que o skate se tornou olímpico?
Com o skate olímpico, o corpo do skatista passou a ser exigido como o de um atleta de alto rendimento: mais intensidade, repetição precisa e consistência sob pressão. Hoje não basta acertar a manobra — é preciso sustentar potência ao longo de um calendário competitivo pesado.
Na clínica eu vejo corpos mais preparados, mas também mais exigidos. A profissionalização acelerou, e o atleta precisa de força, estabilidade, resistência e recuperação em um nível antes pouco cobrado. A preparação física está evoluindo, mas ainda enfrenta barreiras culturais: alguns já treinam com equipe multidisciplinar, outros ainda procuram cuidado só depois da lesão.
A preparação física atual acompanha esse novo nível de exigência?
O próximo salto do skate é estrutural: entender que preparação física e fisioterapia são parte da performance. O corpo virou ferramenta central de evolução e precisa ser tratado com o mesmo respeito que se dá ao seu skate e ao pico.
LONGEVIDADE NO SKATE
Hoje, o skate ainda é pensado mais para impacto do que para longevidade?
O skate sempre foi pensado para o impacto imediato, não para longevidade. Por muito tempo a prioridade era intensidade, não continuidade. Isso está mudando: hoje existe uma geração que quer continuar andando forte por décadas, e isso exige uma nova relação com o corpo.
O impacto faz parte da essência do skate, mas longevidade significa aprender a absorvê-lo com inteligência. Não é andar menos agressivo — é construir um corpo capaz de sustentar agressividade por mais tempo.
Como a fisioterapia pode ajudar o skatista a andar bem por mais tempo?
A fisioterapia entra como ajuste fino: reorganiza movimento, corrige compensações e fortalece estruturas sobrecarregadas. Um corpo alinhado sofre menos desgaste e responde melhor à repetição. Cuidar do corpo não afasta o skatista do skate — garante que ele continue dentro dele. No fim, longevidade é andar bem por mais tempo.

Foto: Arquivo Pessoal
MULHERES & OCUPAÇÃO DE ESPAÇOS
Como é atuar como mulher em um espaço ainda majoritariamente masculino?
Atuar como mulher no skate ainda é, muitas vezes, ocupar território. Eu cresci num cenário onde a presença feminina era exceção, então aprendi que permanecer já era resistência. Hoje o ambiente evoluiu, mas ainda exige firmeza, competência e constância — não basta estar, é preciso sustentar o espaço.
De que forma sua atuação abre caminhos para outras mulheres dentro e fora do skate?
Cada mulher que ocupa o skate profissionalmente amplia o que é possível. Quando atuo como fisioterapeuta, gestora e skatista, mostro que a mulher não está só participando — está estruturando o esporte por dentro. Isso cria referência. Meninas precisam se enxergar nesses lugares para acreditar que pertencem a eles.
Minha atuação é um convite silencioso: tem espaço pra você aqui. E quando uma mulher ocupa, outras se autorizam. Esse movimento coletivo faz o skate crescer mais diverso, mais forte e mais humano.
MISSÃO & LEGADO
Qual é sua missão dentro do skate hoje?
Minha missão dentro do skate é manter pessoas andando. Eu cuido do corpo de quem vive o esporte, garantindo que a dor não vire o ponto final da trajetória de ninguém. Cada atendimento é um investimento em continuidade: devolver movimento, confiança e futuro de pista.
Que legado você acredita estar construindo através da fisioterapia e do cuidado com o corpo?
O legado que eu quero construir é cultural. Quero que o cuidado com o corpo seja parte natural do skate, assim como shape e pista. Se o skatista entende que se cuidar fortalece a permanência, o esporte ganha uma geração mais consciente e longeva.
No fim, meu legado não é sobre mim — é sobre skatistas que continuam andando quando poderiam ter parado.
CAMINHOS PROFISSIONAIS
Para quem quer viver do skate de alguma forma, qual é o primeiro passo?
O primeiro passo pra viver do skate é entender que paixão precisa de estrutura. Amar o skate é o combustível, mas viver dele exige disciplina, estudo e visão de longo prazo. O skate é um ecossistema — atleta, educação, saúde, eventos, gestão, mídia — e quem quer profissionalizar a caminhada precisa enxergar o esporte como cultura e como mercado.
Como profissionalizar a caminhada sem perder a essência do skate?
Profissionalizar não engessa, sustenta liberdade. É cuidar do corpo, da imagem e das oportunidades, transformando amor em sustento sem perder a essência. A organização não mata a raiz do skate — ela fortalece a autonomia de continuar vivendo dele por escolha, não por sorte.





No skate, seguir andando é sempre a maior conquista. Ao longo desta conversa, fica claro que corpo, mente e movimento não podem ser tratados como peças separadas. A fisioterapia surge não como resposta à lesão, mas como parte do próprio caminho de evolução, consciência e permanência no esporte.
A visão de Taise Araújo aponta para um skate mais estruturado, humano e duradouro — onde impacto e performance caminham lado a lado com cuidado, ciência e respeito ao corpo. Entender o próprio limite não enfraquece a essência do skate, fortalece a trajetória. Porque, no fim, longevidade é continuar andando, evoluindo e ocupando a pista com presença, potência e futuro.







