Não existe um ponto exato de início. Para alguns, a arte começa com um primeiro desenho, uma referência, um incentivo. Para outros, ela simplesmente já está ali — impregnada na forma de ver o mundo. Nesse caso, talvez tenha começado no nascimento. Ou talvez no momento em que a rua começou a falar.

Foto da: @buenaondacultural
Foi do lado de fora, longe de museus e galerias, que veio o primeiro impacto: inscrições nas paredes, letras tortas, personagens vivos no concreto. No mesmo cenário urbano, outra linguagem também se apresentava — o skate. Não como esporte apenas, mas como uma forma de leitura da cidade.





Foto: Arquivo pessoal
E foi assim, de maneira orgânica, que essas duas forças se encontraram: skate e graffiti. Duas ferramentas de interpretação urbana. Duas formas de existir no espaço.
Com o tempo, ficou claro que o skate carregava muito mais do que manobras. Existia uma estética própria: shapes ilustrados, música pulsando nas sessões, comportamento, linguagem, identidade. Um universo artístico completo, ainda invisível para quem olha de fora.
Anos depois, o contato com um artista de rua ampliou esse horizonte. A partir dali, a decisão foi direta: levar a arte para fora. Tirar da bolha. Colocar no muro, na rua, na circulação das pessoas. Tornar acessível. Tornar vivo.
Porque talvez seja isso — arte não precisa pedir autorização para existir.
A trajetória, como quase todas, não foi linear. Bagunçada, atravessada, cheia de ruído. E é exatamente dessa bagunça que nasce o processo criativo. Um processo honesto, sem filtro, sem tentativa de se encaixar.
O desenho virou extensão disso: fragmentos internos que ganham forma e depois se transformam em algo maior, externo, coletivo.
Curiosamente, o desenho só começou em 2010 — mesmo sem nunca ter desenhado antes. A entrada no curso de Artes Visuais não veio por vocação acadêmica, mas por estratégia: era o curso com menor nota de corte. E talvez isso diga muito sobre como a arte, às vezes, começa — sem glamour nenhum.
Dentro da universidade, o choque foi inevitável. Reprovações, desalinhamento com expectativas, frustração. A velha tentativa de enquadrar o que, por natureza, não se enquadra.
A pergunta ficou no ar: quem decide o que é certo na arte?

Foram sete anos para concluir um curso de quatro. Mas no meio disso tudo, aconteceu o que realmente importa: oficinas, experiências em escolas, atuação no PIBID, trocas reais com outras pessoas. A arte deixou de ser só expressão e passou a ser também ferramenta.
Depois vieram outras vivências: o ateliê com Suzana Gruber, a disciplina do desenho diário, os reconhecimentos formais — prêmio, menções, exposições.
2017, o ano em que realizei o sonho
a satisfação disso ter acontecido é maior do que qualquer dinheiro que já ganhei com arte na revista cemporcento skate.
Mas, no fim, nada disso parece central.
O que fica é outra coisa.
O privilégio raro de viver de si mesmo.
De transformar a própria bagunça em linguagem.
De existir sem separar vida e arte.
E seguir assim — até o fim. Sem esperar o fim.
Realismo por escrito no caderninho.






Nada vem do nada.
Polin Moreira
Sensacional bate papo com o artísta Polin Moreira
/// Matéria exclusiva para o Portal Skate Vale Brasil por Julio Sagaz
Quando você percebeu que skate e graffiti não eram só influência, mas parte da sua identidade?
Eu acho que não houve um momento de percepção, assim, que eles já estavam inseridos. Acho que foi o contrário. Acho que eu me inseri tanto nisso que se tornou uma coisa normal na minha existência. O skate, que eu ando desde 99, já vem acompanhado dos grafites. Nas imagens, nas fotos dos artistas participantes das mídias da época. Sem contar que do caminho que eu fazia da minha casa até minha avó tinha alguns grafites de artistas aqui da cidade.
E na rua, consequentemente, os skatistas também já faziam parte desse todo. Pra mim foi natural me inserir nessa cultura do grafite e do skate, tendo em vista que eu conheci algumas das pessoas que já andavam e que pintavam. E aconteceu naturalmente essa aproximação e essa vivência.
O que a rua te ensinou que nenhum espaço institucional conseguiria ensinar?
Então, a rua, o grafite e o skate me ensinaram a ser gente, né? Porque na rua é onde a gente se encontra, pessoas de todos os lugares, todos os bairros, a gente costumava encontrar na rua. E essa diferença de classe social, diferença étnica, diferença de cor, ela não se fazia tanto. Ela não era tão gritante quanto a sociedade gostaria que fosse, sabe? Por exemplo, você conheceu um skatista num dia, no outro dia ele estava posando na sua casa. Você conheceu um pintor, no outro dia você estava pintando junto. Então, isso me ensinou muito a ser gente, a não olhar para além do que as pessoas são, sabe? Me ensinou a conhecer muita gente, me conhecer. Me favoreceu muito essa troca, que é a coisa mais importante, eu acho, do skate ou do grafite, que são as pessoas e a história delas e tudo que elas carregam consigo.
Você enxerga o skate mais como prática física ou como linguagem cultural?
O skate eu enxergo como se fosse um movimento, como se fosse o punk, sabe? Não é um estilo apenas, o estilo do skatista. O skate tem suas normas invisíveis, ele tem modos de se portar, ele tem motivos, ele tem porquê, ele tem uma luta. Então eu vejo muito mais o skate como um movimento, do que como um estilo de vida, sabe?
Justamente por ter essas regras e essas possibilidades de mudança. Acho que a partir do momento que a gente consegue ver uma calçada de um jeito diferente, um corrimão de um jeito diferente, isso se torna um movimento até de apreciação da rua.
Em que momento a arte deixou de ser observação e virou necessidade?
Cara, pra mim sempre foi arte, sempre foi necessidade de pobre e fetiche de rico, sabe? Eu sempre senti necessidade de me expressar de alguma maneira, de fazer algo, de ser um agente criador do meio. E tudo isso também me fez pensar que eu não conseguiria mais ficar longe, nem do skate, nem da arte. Que por sorte, conseguir viver da arte foi mais fácil do que viver do skate, então não houve um momento em que eu pensei em separar ou em largar um ou parar com o outro. Então pra mim o skate vai ser sempre essa coisa de necessidade mesmo, que já faz parte de mim, assim como a arte. Eu fico, sei lá, dias sem andar de skate, mas não fico um dia sem desenhar. Chega a ser até meio visceral a minha relação com arte. Se eu não estiver desenhando alguma coisa, tá errado.
Existe diferença entre fazer arte na rua e dentro de galerias? Qual?
A diferença entre fazer arte na rua e na galeria é totalmente discrepante. Porque na galeria é um espaço próprio para a obra ser exposta, né? É um lugar onde as pessoas vão para ver a arte. É um lugar passivo da arte. Você vai lá, vai até os trabalhos, já vai esperando. Já na rua, não. A rua, além do movimento dos transeuntes, além do espaço da urbe, também oferece os riscos que se tem na rua. Por exemplo, alguém não gostar, alguém, sei lá, vai reclamar. Sem contar que na rua a arte é muito mais vista do que na galeria. E na rua ela também tem o poder de revitalizar o ambiente que está esquecido, de ressignificar um lugar abandonado. Também é um tipo de propaganda grátis. A arte de rua se compara a um outdoor de uma loja. A diferença é que quem fez foi um artista, um indivíduo. E isso eu acho muito mais interessante do que na galeria. Que a gente já sabe tudo que vai encontrar. E a rua é meio que uma surpresa, uma grata surpresa.
Sua trajetória passa muito pela ideia de “bagunça”. Como isso se traduz no seu processo criativo?
Acho que não só no meu processo criativo. A minha vida toda é uma bagunça. Eu não sou uma pessoa organizada porque eu assumi esse jeito que eu sou mesmo, sabe? E quando eu digo que é toda bagunçada, é porque eu não faço questão de criar alguma vitrine para que eu pareça mais legal, mais sério, mais confiável. Cada vez mais eu faço esse exercício de transparência que eu sou, e eu sou bagunçado igual a todo mundo, todo mundo mesmo. Eu acho que essa bagunça reflete no meu trabalho porque são só ruídos da minha cabeça e da minha existência. Então, eu gosto dessa bagunça. Toda vez que eu tentei organizar essa bagunça, eu me perdi um pouco.
O quanto a frustração dentro da universidade impactou sua construção como artista?
A frustração na academia veio desde de antes de estar na academia. Eu já era frustrado com os métodos escolares, né? Dessa coisa de padronizar indivíduos, sabe? Um sentado atrás do outro, olhando pra nuca do outro. Sendo avaliado de forma igual, com conteúdos iguais.E na academia não foi diferente. Apesar de eu achar que foi um privilégio, quase que um milagre, eu ter entrado nas artes visuais, pois fui o último chamado pra última turma de artes.
Então essa coisa da academia eu já entrei nela por sorte.E dentro dela também eu tive alguns conflitos, justamente por vir da arte de rua, por ter outros valores, mas que aos poucos eu fui entendendo que a academia também era um lugar muito rico de conhecimento, de trocas, de direcionamentos.Mas foi bem frustrante. Eu demorei sete anos pra me formar numa faculdade que demora quatro.Mas valeu muito a pena, porque foi lá que eu aprendi a ser professor também.
Você acredita que a academia limita ou potencializa a arte?
Eu acho que a academia é mais uma alternativa que a gente pode ter na vida. Ela pode limitar se eu estou procurando algo que ela não ofereça, mas ela também pode favorecer algo que eu não consiga na rua.
Por exemplo, hoje em dia eu acho que a academia não limita tanto quanto limitava no início da minha carreira, que eu estava mais confuso. Hoje eu já sei como funciona o meu trabalho, eu já tenho confiança nele. Então hoje eu vejo a academia muito mais como algo que pode me ajudar do que pode me atrapalhar. Eu estou afastado faz um tempo, mas hoje em dia eu consigo entender a importância da academia. E por se tratar de uma universidade pública, ela tem uma grande importância, onde pessoas que talvez não tivessem condição de pagar um curso superior numa faculdade particular, podem se aproximar disso de uma maneira gratuita.
Então, a academia tem seu valor, mas eu ainda prefiro fora dela.
Como foi levar sua produção para escolas e trabalhar com outras pessoas?
Acho que essa parte é a parte mais legal da academia e do professor, que é levar não só a minha arte, mas uma arte menos consagrada, uma arte que dialoga mais com a realidade da periferia e com a realidade das crianças para dentro da escola. E sempre tratando as crianças como autores de arte e não só como receptores. No meu trabalho, na minha busca didática, eu sempre frisei a autoria e sempre busquei mostrar pros estudantes que eles também são artistas, que não é só o que se tem nos livros, mas que a história deles já é uma obra de arte e que o que falta é só materializá-la através de desenhos, conversas, posters, grafites e tags. Eles não são só receptores da arte, eles são criadores e inventores.
Seu trabalho parece muito baseado em fragmentos. Isso é intencional ou natural?
É, a minha arte tem isso, ela é uma arte com início, meio e fim, mas que também se resolve em fragmentos. Se pegar um pedaço ou uma frase, você vai conseguir identificar. E dentro disso, dessa pergunta e da minha produção artística, eu trago cada pedacinho de mim, ou de coisas que eu estou passando, ou pensando, ou vivenciando na época. Para essa arte, para esse símbolo. Quando meu pai estava vivo, e eu estava cuidando dele, eu tratava muito sobre a questão do luto. Quando eu estava morando em São Paulo, com saudades de casa, eu tratava muito como o sair de casa. Então a minha arte ela sempre vai representar de alguma maneira, nem que seja sem querer, o momento atual da minha vida. E a nossa vida é fragmentada, né. Algumas coisas acontecem, outras não. Não tem um início e meio fim, tem só o durante.
O que significa “sinceridade” dentro da sua produção artística?
Acho que tudo, não sei exatamente o que significa a sinceridade no meu trabalho, porque eu nunca pintei de mentira. Então cada ponto, cada gota que caiu de tinta ali é muito sincero. Eu acho que a sinceridade é intenção, é seguir tentando.
Você sente que precisa provar algo ou já superou essa fase?
Eu não sinto que tenha que provar nada para ninguém. Nunca senti. Eu acho que desde que minha família, minha mãe, entendeu que o filho dela é artista, que era a única pessoa que talvez se preocupasse com isso, né? Porque grafite, essas transgressões, elas nos colocam em conflito com a lei. E eu lutei com a lei e eu venci, como falava o The Clash. Mas não tenho que provar nada, não. Tenho que provar pro Banco só, que eu preciso de dinheiro pra pagar as contas. Acho que a única prova que eu tenho é isso, são os boletos pagos.
Qual é o papel do reconhecimento (prêmios, exposições) na sua caminhada?
Eu confesso que fico feliz, mas o papel deles é só confirmar que eu sou um artista, confirmar que eu sou bom nisso. Já aconteceram coisas muito mais marcantes do que um prêmio e tal que eu saí numa revista. E isso é o que me move, né. O caminho e a lembrança. Não apenas o prêmio em si.
Hoje, o que ainda te move a continuar produzindo diariamente?
O que me move mesmo é estar vivo. Porque enquanto eu estiver vivo, um lugar para morar e um pingo de consciência eu vou seguir pintando. Minha vida não se separa mais da minha produção artística e a minha produção artística não se separa da minha vida. Então enquanto eu estiver vivo e bem, com lugar para morar, com voz para falar, eu vou estar sempre produzindo, sempre sendo artista e sempre tentando.
Se sua trajetória tivesse que ser resumida em uma imagem, como ela seria?
Se a minha trajetória pudesse ser resumida em uma imagem seria quando eu era criança e via minha mãe descendo do ônibus e indo ao meu encontro na minha casa. Essa é a imagem mais bonita que eu lembro. Ela trabalhar o dia inteiro, pegar um ônibus, descer, e eu ir correndo encontrar ela enquanto ela descia a rua. Essa é a imagem do meu trabalho, a imagem da minha vida. Eu imagino que me move. Que são as pessoas que eu amo e que me amam, fazendo coisas por elas e por mim. A imagem que me move é isso. É o número de abraços que eu dei quando encontrava ela voltando do trabalho.
“Fragmentos”: registros da diversidade artística em Santa Maria.
O “Fragmentos” busca documentar variadas expressões artísticas da cidade, com intuito de preservar a história cultural local e fomentar o reconhecimento da produção artística santa-mariense. Polin Moreira, fala sobre sua trajetória e trabalhos. Nascido e criado em Santa Maria, formado em Artes Visuais pela UFSM, tem como suas principais influências a rua e o cotidiano, vindo da vivência do skate, fanzine e do graffiti. Sua arte carrega esse ruído urbano e bagunçado. Produção: Buena Onda

Matéria exclusiva para o Portal Skate Vale Brasil. Abril de 2026



